terça-feira, 13 de setembro de 2011
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Água de cacto

Sua felicidade às vezes durava tão pouco que ele nem se lembrava. Estava acostumado a não acomodar as coisas na memória, mas num lugar seguro a todas as feridas. Guardava suas mágoas em lagoas de água salgada represadas nas maçãs do rosto e no fundo dos olhos.
Ficava muito tempo calado, encomendando pensamentos, tentando não dar vazão às águas podres que se acumulavam todos os dias sob seu sorriso enferrujado. Mas às vezes precisava transbordar... Sentava num bar escuro e sem espelhos, onde ninguém soubesse seu nome. De seus olhos escorriam o sal, o cheiro de um cabelo, um toque no ombro, a textura de uma boca. Escorriam alguns nãos, um ou outro quase e um ontem contínuo. Escorria muita palavra atravessada, alguma indiferença e principalmente muita saudade não correspondida. Quem o olhasse naquele momento só conseguiria ver um ser bêbado, patético e ridículo. Baixava então a cabeça, tomava mais um trago e arranhava a mesa por baixo até lascar as unhas. Depois enxugava o rosto num guardanapo de papel barato - como se fizesse um curativo nas feridas antigas - levantava e voltava pro mundo.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
quinta-feira, 16 de junho de 2011
terça-feira, 14 de junho de 2011
domingo, 22 de maio de 2011
'No Século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal.
...
...
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Mentira: compreendo, sim. '
sábado, 14 de maio de 2011
Caso pluvioso
A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que Maria é que chovia.
A chuva era Maria. E cada pingo
de Maria ensopava o meu domingo.
E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.
Eu era todo barro, sem verdura…
Maria, chuvosíssima criatura!
Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.
Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal e noturna, ativa…Nossa!
Não me chovas, Maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.
Não me inundes de teu líquido plasma,
não sejas tão aquático fantasma!
Eu lhe dizia em vão – pois que Maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.
E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,
que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.
Chuvadeira Maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!
Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,
poças dágua gelada ia tecendo.
Choveu tanto Maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa
sei apenas que nele me afundei.
(...)
Drummond.
Às vezes os sentimentos escapam do nosso controle...

